A cachaça e a Gripe Espanhola: a “vacina” popular na pandemia de 1918

Não é novidade o uso da cachaça na medicina popular ao longo do tempo. Na cidade do grande craque do passado, Garrincha, em Pau Grande (interior do RJ), na primeira metade do século passado, o “cachimbo”, uma mistura de cachaça com limão e ervas, era usado para tratar varias enfermidades, inclusive e erradamente, por crianças. Porém, o uso de aguardentes combinadas com limão com efeito medicinal é muito mais antigo, sobretudo depois que se descobriu, em 1747, a eficácia do limão na prevenção e tratamento do escorbuto, doença que matava muitos navegadores.

Quando a pandemia da gripe espanhola explodiu no Brasil e foram adotadas de forma tardia medidas de isolamento, ressaltou naquele momento um aspecto: ninguém sabia o que provocava a doença. O vírus da influenza só seria isolado em 1933. A proliferação de receitas milagrosas, chás, emplastos, beberagens diversas espelharam as insatisfações da população com a falta de atendimento adequado, com a impossibilidade de estabelecimento de um diagnóstico preciso, pela ausência de estratégias do governo e das autoridades sanitárias.

Mas nada superou o sucesso das beberagens à base de limão e cachaça, principalmente na cidade de São Paulo.

A mistura já era bem popular nos botecos paulistanos àquela altura. Mário de Andrade a havia registrado anos antes da Espanhola, inclusive sugerindo que as contrafações já estavam em curso: “A batida paulista é realmente a melhor das misturas da cachaça. Quando legítima, isto é, com limão, água e açúcar apenas”.

Quando chegou a gripe espanhola  e escassearam remédios, restou à população acreditar nos poderes curativos da pinga com limão. Nas casas, enquanto havia o fumigamento com infusões de folha de goiabeira para espantar os “miasmas”, as famílias distribuíam a mistura de limão com cachaça como forma de prevenção, acrescida às vezes de alho, cebola e canela.

Com isso, apesar das orientações para o isolamento social, que foram de forma geral, cumpridas , os botequins paulistanos lucraram com a crença popular na relação entre Caipirinha e Gripe Espanhola. Enfim, a Espanhola passou, depois de três ondas, deixando um rastro de pelo menos 50 mil mortes no Brasil – e 50 milhões em todo o mundo. Mas, ainda em 1957, se brincava com o uso da “caipirinha” na prevenção da Espanhola, que vitimou sobretudo a população das periferias de São Paulo e Rio de Janeiro. “Batida de limão é vacina de pobre” era o que dizia na época.

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